Eu não sou boa nem quero sê-lo, contento-me em desprezar quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um.
- Eu posso viver de você? - Ela me perguntou com os olhos baixos, o rosto soturno afundado por dentro de suas mágoas antigas e a blusa de alça arrebentada que deixava seu seio direito aparecendo.
- Posso? - Ela insistiu.
- Pode. - Eu respondi.
- Mas ninguém gosta de ser vampirizado assim, meu bem.
- É que ando tão débil. Tão fracassadamente inútil. Não consigo mais aguentar meus pesadelos. Ontem mesmo sonhei que tinha te deixado e ido para a China. E a ligação não completava, você não me atendia. E haviam viagens diárias de três horas. Exaustivas, Carlos.
-E vai suportar a metade do meu peso?
- Eu não sei. Mas nos meus sonhos, você sofre menos.
- As nossas dores serão sempre maiores, Ana. E ainda tem a consciência latente.
- O que tem a consciência latente?
- Se eu repartisse meus lamentos você ainda assim, não saberia do meu passado. Seria só a dor crua. Você não teria a consciência primordial de todas as vezes de que me negaram uma oportunidade, de todas as vezes que mentiram ou fingiram que eu não existia. Mesmo que você se alimentasse de todos os meus medos, você não entenderia meus traumas e surras. Porque você não estava lá.
- E a lembrança é a maior das dores, Ana. É a lembrança. Sem ela, não há sofrimento.
- Então eu quero esquecer.
- Seria melhor uma outra vida, não acha?
- Talvez, mas aí você não existiria.
- Em todas as minhas apostas de vida você apareceria. Em todas, nosso encontro foi inevitável como um voo rasante em direção a minha janela. Não importa o suicidio, o acidente letal ou a parada cardíaca. Não importa se será em Las Vegas ou na China Comunista. Minha boca sempre despencará dentro da sua e meus dentes ainda vão se chocar contra os seus no meio da nossa solidão avassaladora.
- Avassaladora?
- Claro. É uma boa palavra para a nossa solidão de encontros intermináveis. Não acha?
- Acho que sim.
- Não li meu horóscopo hoje.
- Por isso a patologia, baby? Quer que eu leia para você?
- Quero.
- Hoje a sua lua está em Marte e você precisa se conformar. A purificação não virá de dentro devido a tempestade e a loucura. Use as muletas quando sair de casa.
- Começou a chover. Você fecha as janelas?
- E tem como fechar as janelas de dentro?
- Tempestade interna, Carlos, só passa depois que a lua ceder a ao terror do sol.
- Terror do sol?
- E não é terrível uma combustão eminente?
- Você se esquece do apocalipse? O mundo terminará antes congelado pelo frio. Terminará inerte, petrificado por dois mil anos de devastação e isolamento. A boca do mundo tapada, sem direito ao último grito de dor. Frio como o resto do universo, impotente e insignificante dentro das mãos de Deus.
- E você não tem medo?
- Não mais. Minha boca já foi costurada pela sua e silenciada por seus beijos. Morrer ao teu lado será meu último espetáculo e graça. E eu não poderia exigir nada mais grandioso da morte.
- Ainda assim quero esquecer, Carlos.
- Eu também. Mas ao mesmo tempo eu tenho um carinho tão grande pelas minhas dores. Tenho tanto medo de ser feliz.
- Como se o corpo não suportasse o peso que a felicidade carrega?
- Como se a felicidade não fosse feita para os homens. E sim para os deuses.
- Tenho que aprender a sofrer, Carlos.
- E eu a chorar.
(…)